domingo, 13 de janeiro de 2013

Crônica: O Fim do Mundo?

(Crônica publicada na Revista Bairro Peixoto (Copacabana) número 23 - Dezembro de 2012 - Rio de Janeiro)

Cá estamos nós, de novo, diante do fim do mundo. Dizem que desta vez é para valer. Mas, se você está lendo estas linhas é porque, mais uma vez, lamento, o mundo parece não ter acabado ainda. 

Dessa vez o fim do mundo está sendo anunciado pelos Maias - civilização que habitou a região hoje conhecida como América Central, e que possuía uma cultura avançada nas áreas da linguagem, matemática, arquitetura e astronomia. De acordo com o calendário daquele povo, o dia 21 de dezembro de 2012 é o último dia de um ciclo de 5.125 anos do calendário de contagem longa mesoamericano (calendário este que conta o tempo de vinte em vinte unidades, base de contagem comum nos povos mesoamericanos anteriores à chegada dos espanhóis). 


Em decorrência dessa data fatídica, de acordo com as interpretações vigentes, estamos diante de um fim inevitável, ou até mesmo um começo, conforme o humor de cada um. A versão para os otimistas é que os habitantes da Terra sofrerão uma transformação espiritual que os elevará a um novo patamar de consciência. Mas alto lá! Mesmo pensando assim não nos livraremos de uma ou mais catástrofes purificadoras, pois é, não existe mesmo almoço grátis... Já na versão para os pessimistas a perspectiva é mesmo a do fim do mundo, tipo aniquilação total mesmo, em outras palavras, não sobrará nada. As catástrofes que figuram nesta versão já são mais cabeludas, normalmente tem a ver com a colisão de algum corpo celeste contra nosso singelo planeta. 


O fato é que os estudiosos sérios, claro, rejeitam a ideia da ocorrência de eventos cataclísmicos nessa data. Na verdade, segundo eles, não há qualquer menção evidente na cultura Maia que indique que o dia 21 de dezembro de 2012 será o dia do fim do mundo. A ideia de que estamos perto do fim dos tempos acabou sendo uma deturpação que ganhou força e popularidade. 

O fim do mundo já foi anunciado várias vezes. E parece já ter ocorrido algumas delas. Temos o grande dilúvio descrito na bíblia, onde Noé fora encarregado por Deus de garantir que, quando as águas baixassem, pudesse haver a continuidade da vida interrompida pelo aguaceiro. Tem também o desaparecimento dos nossos ancestrais longínquos, os dinossauros, que teriam sumido após um cataclismo que alterou o clima do planeta. Se por conta disso entraram em extinção, parecem ter ressuscitado, tal a presença maciça dos bichos nos filmes, seriados e parques mundo afora. Não podemos esquecer do apocalipse, que sempre paira sobre nós prometendo que o juízo final pode estar logo ali. A própria ciência também já decretou o fim da Terra, que acontecerá quando o sol explodir, mas garantem que isso ainda vai demorar alguns milhões de anos. 

Na verdade, praticamente todas as culturas e civilizações possuem um mito para a criação do mundo e também para o seu fim. Penso haver em nosso inconsciente um impulso que reaviva esses mitos e crenças e que acaba tornando populares efemérides como a da civilização Maia. É uma forma coletiva de nos lembramos que tudo tem um fim, até mesmo aquilo que parece eterno ou que promete ficar por muito tempo após nossa partida. Mas acho que a ideia do fim está presente em nosso dia a dia muito mais do que pensamos. Claro, podemos pensar que a morte marca nosso fim como indivíduos, seria uma espécie de fim absoluto. Mas quantas vezes nós não morremos durante o período de nossa vida? Por quantos fins já não passamos, quantos projetos já não se findaram com ou sem o êxito esperado? Quantos amores já não se foram, e amizades também? Quantos ciclos já deixamos para trás? E após todas estes términos invariavelmente nos deparamos com um começo, com uma nova possibilidade, novos projetos, novos ciclos, nova vida. E assim vai, precisamos dar um fim para que possamos continuar em frente. Tomara que possamos aproveitar a inspiração que o fim do mundo trazido pelos Mais nos dá para que possamos fazer do ano de 2013 um grande começo. Feliz ano novo a todos!

Crônica: Faixa de Pedestre

(Crônica publicada na Revista Bairro Peixoto (Copacabana) número 22 - Novembro de 2012 - Rio de Janeiro)


Entreolham-se por alguns instantes; venceu o mais forte, o mais rápido.

Esta cena poderia estar se passando em muitos lugares. Poderia ser uma caçada na savana africana, onde o predador abate implacavelmente sua presa. Poderia ser um ringue (octógono talvez seja mais apropriado) onde dois lutadores estão prontos para atirarem-se um contra o outro; poderia ser ainda uma reunião, onde negócios de alta monta são tratados de forma dura e agressiva.

Pois é, mas o pano de fundo de nossa cena é um lugar, a princípio, muito distante dos cenários onde a vida e a morte parecem ser as únicas opções. A cena se passa em nosso pacato Bairro Peixoto.


Num final de tarde como outro qualquer, um cadeirante desejava atravessar a rua entre nossa simpática praça e a Travessa Moacyr Deriquem, que dá acesso à Rua Santa Clara. Foi aí que, na dúvida se devia fazer a travessia, hesitou por um instante, já que um carro se aproximava sem dar pista se iria respeitar as faixas pintadas no chão. Nosso estimado vizinho olhou bem nos olhos do motorista, que retribuiu o olhar, já em cima do quebra-molas, que, em tese, avisa sobre a necessidade de ir mais devagar. O motorista nem mesmo cutucou o freio, passou com o carro saltitando bem em frente a nosso vizinho, seguindo viagem, pois estava com pressa.


Infelizmente, esse não foi nosso único vizinho que passou por situação semelhante. Todos os dias crianças de colo, em carrinhos, ou de mãos dadas com suas mães e babás observam os carros passarem por cima da faixa de pedestres, sem dar-lhes a menor chance. Sem falar nos idosos que lá vão para se exercitar ou passear, coitados, caso iniciem a travessia com um carro se aproximando, tem que terminá-la com o motor rosnando raivoso em seu encalço.


Outro dia ouvi alguém sugerir que se deveria mudar o nome da faixa para "Faixa de Automóveis", já que são os pedestres que param para que os carros passem, talvez a ideia não seja má... Mas interessante mesmo foi uma outra cena que se passou no mesmo local. Um pedestre, indignado com a falta de educação do motorista que vinha à toda, sem a menor intenção de parar na faixa, acenou vigorosamente diante do carro e iniciou a travessia, o automóvel freou bruscamente, o motorista gritou: "Ô, meu camarada, tá maluco, em que país você pensa que está, Inglaterra?", o pedestre devolveu: "Que diferença faz? A faixa é a mesma seja aqui ou lá!", o motorista respondeu acelerando, "Em Londres é diferente, p...!" O pedestre arrematou, "É, lá você pararia!"

sábado, 15 de maio de 2010

Horizonte



O horizonte oscila. O barco perdeu-se e, à frente, densas nuvens ocultam o que talvez pudesse ser um farol. É uma viagem solitária, há muitas ondas e nada que se possa fazer para enfrentar o vento que vem de todas as direções.

O capitão está só, não é a primeira vez que isto acontece. Ele cumpre seu ritual patético de se abrigar embaixo de um quepe e colocar-se diante da tempestade em tom desafiador. Mas o temporal o desconhece, ele não é nada, talvez um intruso num cenário que não lhe pertence. Nada daquilo foi feito para ele, que só consegue divisar um horizonte que oscila.

Há uma onda enorme vindo em sua direção. Uma parede de água bela, extraordinária e violenta. Apesar de sua altivez, as pernas do capitão amolecem, nada pode ser feito, a não ser pensar na última viagem de um homem. À medida que se aproxima, sua crista se dobra armando o bote final, inconsciente de sua fúria encantadora.

O capitão tenta evitar o medo, abafa-o, tranca-o. Mas ele se libera e rompe as amarras e nós que tentaram-lhe atar. Dança, à sua frente, seduz-lhe. O capitão é medo puro diante da parede que vem ao seu encontro. Sua vida se resume em poucos segundos, e tudo o que vê contribuiu para levá-lo até lá. Desde seu primeiro choro, quando apartado do interior de sua mãe, até o momento em que seu pé esquerdo deixou a terra para aquela viagem. Ainda com o mar calmo, deixou o porto olhando firme para o horizonte, uma última vez olhou para trás. Viu luzes amarelas e pálidas e alguns pequenos barcos cansados e fracos. Não mais tornaria a vê-los, pensou.

Que sentido há nisso tudo? Atirar-se assim tão cegamente rumo a nuvens que embaçam o destino. Não foi o desespero. Tampouco foi a razão. Não se sabe, na verdade, em que ponto aquela viagem começou. Mas ele estava calmo, apesar do medo, e entregou-se ao que vinha ao seu encontro. Não era um homem jovem, mas sentia-se forte o suficiente para não querer retornar.

A onda estraçalha sua embarcação. Os pedaços que restam se espalham e se distanciam. Pouco depois, tudo começa a se acalmar, como se a tempestade só tivesse como único objetivo livra-se daquele intruso.

O capitão ainda estava por ali. Salvou-se de algum modo, talvez tenha sido o medo que lhe protegeu. O horizonte ainda oscilava. Mas tinha a impressão que apesar do escuro e das nuvens que ora ocultavam e ora revelavam formas, uma faísca lampejava aleatoriamente no meio do nada. A esta altura, o capitão só podia nadar.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Casa que encolheu



Ao me deparar com a praça fiquei intrigado. A primeira coisa que pensei foi que ela tinha encolhido. Tudo estava menor: os bancos, suas árvores, seus canteiros, seus limites. Ela parecia espremida pelas ruas, carros, ônibus e pelas pessoas que circulavam à volta. Estava bonita, bem cuidada, talvez mais bem tratada do que quando nos conhecemos. Mas senti que ela não estava feliz. Era menos livre, e acanhara-se pelo progresso que a cercava.

Compartilhei com ela o mesmo sentimento. Incomodava-me aquele movimento todo que antes não havia. Antes, tudo era maior. Na verdade, era enorme, do tamanho do mundo, do meu mundo. Vi meu pai parado me observando aprender a andar de bicicleta, enquanto eu acreditava que ele corria atrás de mim, segurando-a pelo banco. Ao descobrir que estava só, eu perdia o equilíbrio e caía assustado. Vi, do outro lado da rua, o jornaleiro onde comprava pacotes de figurinhas e as abria, ansioso, ali mesmo na praça. Agora, o jornaleiro não estava mais lá, nem meu pai.

Hoje, aquela praça me encarava envergonhada. Percebi seu constrangimento, mas nada podia fazer. Distante, ouvi o som do sino da igreja que dava para a ela. Lembrei-me dela como era antes; mas agora, estava mais bonita, bem cuidada. Resolvi entrar, mas ao tomar esta decisão não pude evitar um aperto no coração. Temi que ela também fizesse parte de um mundo que encolhera. E assim foi. Ao entrar senti que tudo parecia tão menor. Por fora nem tanto, talvez tenha sido ludibriado pela imponência que mesmo uma igreja do interior gaba-se em ter. Mas o fato é que por dentro não era mais que uma capela. Quando criança costumava olhar para o seu teto, para mim ele confundia-se com o céu. Estava calor, sai antes de a missa terminar. Voltei à praça e sentei-me num de seus bancos novos.

Pensei na minha casa, que ficava não muito longe dali. Uma casa rosa de janelas azuis. Um quintal enorme e muitas árvores. Ao se atravessar seu portão, havia uma escada, e lá de cima via-se a rua como se num castelo eu estivesse. Era o meu castelo, reino das primeiras histórias. Lugar de palavras e lembranças. Terra de cores e vento. Um mundo solitário e repleto de uma beleza discreta, que eu só perceberia muitos anos depois.

Levantei-me do banco e dirigi-me até lá. Mas depois de alguns passos, parei. Afinal o que poderia eu encontrar? O meu reino ou uma casa que encolhera? Na minha frente, um garoto tentava se equilibrar numa bicicleta. O guidão apontava para um lado e para o outro, a ponta dos pés se arrastava no chão, até que, finalmente, a bicicleta se aprumou. Vinha devagar ao meu encontro. Passou por mim e seguiu em direção ao centro da praça.

domingo, 18 de abril de 2010

Calvino no Metrô


Ontem eu vi Calvino no metrô. Ele também me viu, mas não me reconheceu. Na verdade, não era mesmo Calvino, mas isto pouco importa. O fato é que estávamos lá tão próximos um do outro. E eu o vi como naquela que parecia ser uma de suas últimas imagens, onde ele, com a testa franzida e olhos opacos, acenava um adeus.

Ali no metrô ele parecia distante, estava com pressa e seu olhar revelava interesse em algo que não consegui perceber. Quase o cumprimentei, mas hesitei. Temi que ele não fosse receptivo.

Mesmo à distância fiquei feliz, pois apesar dos caminhos cruzados, que impediram que nosso encontro pudesse ocorrer antes, estávamos naquele instante cara a cara. E este fato me tirou dali.


Pensei nas muitas cidades, tão visíveis para mim, e em suas relações com a vida. A cidade orgânica que nos engole, nutre e revela. As cidades artificiais frias e distantes, reflexo do que lá existe. Vi Kublai khan e Marco Polo, sentados frente a frente, num duelo elegante. O primeiro, em sua busca pela pedra fundamental, esquece que é o arco que sustenta a ponte. Quando percebe o erro, abandona a pedra e, em busca do arco, não vê que ambos se sustentam. O segundo, que conheceu todas as cidades, o conduz e lhe revela o que há em seus próprios domínios.

O metrô para. Por um momento, temi que Calvino fosse embora. Queria poder olhar para ele mais um pouco, despedir-me mais uma vez. Na verdade, eu queria compreender aquele último olhar. O que ele significava? Talvez ele estivesse acenando para a própria morte e seu aceno desejasse afastá-la, mas seu olhar o traia e revelava que era necessário partir.

Foi quando vi Cosme Chuvasco de Rondó. Estava em pé num galho grosso, com o braço esticado e a mão espalmada no troco da árvore, uma de suas pernas cruzava na frente da outra e fazia um quatro. Ele me olhava com um ar entre o irônico e o desafiador. Lá do alto, emanava a autoridade de quem viveu segundo suas próprias regras e acho que me instigava a pensar nisso.

Mais uma vez o metrô para. Ao me dar conta, busco Calvino rapidamente. Percebo que ele deixou o trem. Consigo ainda vê-lo de costas subindo as escadas, deixando para trás sua lembrança.

Calvino, eu não sei se verei de novo. Mas o senhor Cosme de Rondó continua me desafiando. Eu estou diante de uma árvore, decidindo se nela subo, mas se o fizer posso nunca mais descer.